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Residências terapêuticas tentam reintegrar portadores de distúrbios psiquiátrico à sociedade após anos de isolamento . Rodrigo Ferrari Até que enfim vocês chegaram! Já fazia tempo que eu estava esperando por vocês... Com um sorriso de satisfação no rosto, Altair Taborda vem até o portão receber a equipe do Jornal da Cidade. Ele tem 56 anos de idade, mora em Bauru desde 1998 e hoje em dia está aposentado. Participa de cursos voltados para a terceira idade na Universidade do Sagrado Coração (USC), faz hidroginástica, freqüenta aulas de informática e conversa com os filhos pelo MSN. Ex-artista de circo, costuma realizar esporadicamente shows gratuitos de mágica, sempre acompanhado pela companheira Maria das Graças Agostinho, 49 anos, com quem está junto há cerca de três anos. Rotina normal, quase trivial, não fosse por um detalhe: Taborda e Maria são portadores de distúrbios mentais graves e passaram grande parte da vida confinados em hospitais psiquiátricos. Atualmente, os dois fazem parte do programa de residências terapêuticas da Divisão Municipal de Saúde Mental da Prefeitura de Bauru. Aproximadamente 40 pacientes são atendidos pelo serviço que consiste, basicamente, numa tentativa de reintegrar ao convívio com a sociedade os doentes mentais que passaram por longos períodos de internação. São 11 residências localizadas no Jardim Bela Vista que funcionam com essa finalidade, além de um posto de apoio situado no bairro, onde atuam psicólogas, enfermeiras e outros profissionais da área da saúde. As residências terapêuticas foram criadas em 2005, como parte das medidas que visavam a implantação de uma rede de saúde mental no município. Elas sucederam os antigos lares abrigados da Associação Beneficente Cristã, o Paiva, criados para atender os pacientes que não tinham família e apresentavam condições de conviver em sociedade. Sueli Cavicchioli Azevedo, psicóloga encarregada pelos serviços de residência terapêutica em Bauru, explica que nos lares abrigados, existia uma espécie de dependência do paciente com relação à instituição psiquiátrica (o Paiva), ao passo que o modelo atual tenta garantir que o indivíduo com problemas mentais consiga retornar ao convívio com a comunidade de uma forma autônoma. A maior parte dos pacientes atendidos pelo serviço esteve confinada durante décadas em instituições psiquiátricas. Nas residências terapêuticas, eles reaprendem a fazer operações básicas do dia-a-dia: lavar roupas, cozinhar, ir à feira ou fazer uma faxina na casa sem necessitar do auxílio de ninguém. Os pacientes fazem aulas de hidroginástica (três sessões semanais), e alguns freqüentam cursos de alfabetização para adultos. Levar esse trabalho adiante tem sido um grande desafio para nós, avalia a diretora da Divisão de Saúde Mental do Município, a psicóloga Vera Lúcia de Paula Rodrigues. É difícil para uma pessoa que passou tanto tempo segregada ser reinserida no convívio com as demais pessoas, pondera. Nessa lenta e gradual readaptação à vida em sociedade, todo e qualquer avanço (por menor que possa parecer) apresentado pelos doentes torna-se motivo para comemorações. Esta semana, ocorreu um caso interessante. Havíamos programado de levar o pessoal para passear em um pesqueiro aqui da região. Um dos pacientes - um senhor que tem por volta de 80 anos de idade -, quando ficou sabendo da novidade, veio me dizer: ‘Você vai me arrumar uma peneira para eu apanhar iscas no rio?’ Fiquei imaginando como, depois de tanto tempo internado, aquele homem ainda era capaz de se lembrar daquilo... Para nós, pode parecer que não é nada, mas para eles, coisas desse tipo representam o resgate daquilo que haviam sido antes de ser hospitalizados, comenta a psicóloga Sueli. Nos textos a seguir, o leitor terá a oportunidade de conhecer com mais detalhes as histórias de dois casais que se formaram nas residências terapêuticas, prova de que o amor não escolhe hora e nem lugar para surgir - prova, também, de que o serviço vem alcançando avanços significativos na recuperação dos doentes mentais. Acompanhe as histórias a seguir. PUBLICADA PELO JORNAL DA CIDADE DE BAURÚ EM 04/01/2009
Doentes Mentais Reaprender a Viver
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